O Congresso
Nacional, historicamente, tem sido palanque não apenas de votações, mas também de
embates simbólicos e gestos políticos que marcam períodos de tensão
institucional no Brasil. Em abril de 2018, parlamentares da esquerda —
incluindo PT, PCdoB, PSB, PDT e Psol — anunciaram obstrução total dos trabalhos
na Câmara dos Deputados. O motivo: a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, que, segundo os deputados, havia se tornado um "preso
político" e símbolo de resistência contra um suposto “Estado de exceção”
instaurado no país. Entre os atos simbólicos, muitos parlamentares passaram a
assinar como “Lula” e acamparam diante da Justiça Federal em Curitiba.
Sete anos
depois, em agosto de 2025, parlamentares ligados à direita reagem de forma
semelhante à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Deputados oposicionistas
acamparam na Câmara, passaram a noite no local e anunciaram obstrução das
pautas legislativas em protesto. Assim como a esquerda em 2018, a direita agora
questiona a legitimidade do processo judicial, fala em perseguição política e
se organiza em manifestações com apoio de militantes.
A reação da
esquerda a esse novo episódio, no entanto, tem sido crítica. Setores
progressistas acusam os parlamentares bolsonaristas de “afronta à democracia”,
“golpismo” e “instrumentalização das instituições”. O problema é que esse mesmo
tipo de manifestação foi celebrado por esses grupos em 2018, quando o alvo da
prisão era um de seus líderes políticos.
Essa
comparação revela um dado importante da política brasileira: a
instrumentalização da palavra “democracia” conforme o lado que ocupa a
oposição. O que para uns é resistência legítima, para outros é tentativa de
sabotagem das instituições — e vice-versa.
Não se trata
de igualar os méritos jurídicos dos casos de Lula e Bolsonaro, que possuem
contextos, provas e acusações diferentes. Trata-se, sim, de reconhecer que o
direito à manifestação, inclusive no parlamento, é um instrumento legítimo e
historicamente utilizado por diferentes forças políticas.
Quando a
esquerda em 2018 ocupou o plenário, obstruiu votações e fez discursos
inflamados contra o Judiciário, não foi acusada de "golpe" — ao
contrário, foi aplaudida por parte da imprensa e da sociedade civil como
defensora da democracia. Hoje, quando a direita repete os mesmos métodos de
protesto, é tachada por muitos desses mesmos setores como ameaça à ordem
institucional.
É essa
seletividade que precisa ser discutida. A democracia não pode ser um campo de
conveniência. Se há o reconhecimento de que obstrução parlamentar, acampamentos
e protestos são válidos como forma de resistência quando a esquerda é oposição,
o mesmo princípio deve valer quando a direita ocupa essa posição.
A pluralidade de ideias e a liberdade de expressão, inclusive dentro do parlamento, são pilares constitucionais. A coerência exige que não se criminalize hoje o que foi defendido ontem.
Mais do que rotular manifestações conforme interesses ideológicos, é hora de reconhecer que o respeito à democracia se dá, acima de tudo, pela defesa dos direitos de todos — inclusive daqueles com quem se discorda.
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