Em menos de 6 meses, a Câmara Dos Deputados aprovou duas medidas de forte impacto institucional: o aumento do número de cadeiras na Casa, previsto no PLP 177/23, e a chamada PEC da Blindagem, que amplia as proteções legais dos parlamentares. As votações, embora tratem de temas distintos, revelam o mesmo padrão: a priorização de pautas que fortalecem o poder do legislativo e protegem individualmente seus membros, em detrimento das demandas da sociedade por transparência e responsabilidade.
A LOGICA DA AUTOPRESERVAÇÃO EM DUPLO
MOVIMENTO
O comportamento dos deputados nas
duas votações mostra que o Congresso é capaz de superar diferenças ideológicas
e partidárias quando os interesses em jogo dizem respeito a seu próprio poder e
prerrogativas. A aprovação desses dois projetos nos mostra que não é algo
meramente casual, mas um movimento deliberado de um corporativismo político.
Enquanto pautas sociais e
econômicas o plenário costuma se dividir em linhas de governo e oposição,
nestes houve coesão. O Centrão, parte expressiva da base governista e até
partidos de oposição combinaram para aprovar propostas que, na prática,
significam expansão de poder e aumento de blindagem judicial para
parlamentares.
O PRIMEIRO ELO: AUMENTO
DE CADEIRAS (PLP 177/23)
O PLP 177/23, que aumenta de 513
para 531 o número de Deputados Federais, foi apresentado como respostas a uma
determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) para atualizar a distribuição de
cadeiras de acordo com o Censo de 2022.
O texto foi
aprovado na Câmara por 270 votos a favor e 207 contra – apenas 13 votos
acima do mínimo necessário para sua aprovação. O relator Damião Feliciano
(União-PB) ampliou o número de cadeiras para evitar que estados que perderam
população – como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Bahia – tivessem redução
em sua representação.
O presidente da Câmara, Hugo Mota (Republicanos-PB), defendeu que não haveria aumento de custos. Porém, estimativa apurada por nós indica que cada novo deputado custará em média R$ 3,6 milhões por ano, o que soma cerca de R$ 64,6 milhões anuais aos nossos bolsos. Na prática, o gasto será absorvido dentro do orçamento da Casa, mas significa menos recursos para outras áreas ou oportunidade perdida de economia.
Partidos como PSOL, REDE e NOVO
votaram majoritariamente contra, enquanto SOLIDARIEDADE e parte das bancadas do
Centrão apoiaram a proposta. Para críticos, o aumento das cadeiras não passa de
uma forma de preservar e ampliar poder político, ainda que à custa de maior
despesa pública.
SEGUNDO ELO: A BLINDAGEM
DO MANDATO PEC 3/2021
A PEC da Blindagem, por sua vez, foi aprovada com
votação muito mais expressivas: 353 votos a favor no 1º turno e 344 no 2º
turno, bem acima dos 308 necessários.
A proposta restringe decisões monocráticas do STF contra parlamentares, exige autorização do Congresso para prisão ou abertura de processos criminais e restabelece o voto secreto nesses casos. Para os defensores, como o relator Claudio Cajado (PP-BA), a PEC preserva “prerrogativas” e garante a “plena liberdade” do Congresso.
Mas para críticos, trata-se de um retrocesso democrático. O senador Renan
Calheiros (MBL-AL) chamou a medida de “impunidade universal”, enquanto a
Transparência Internacional afirmou que ela é a “certeza de impunidade”.
A votação ainda foi marcada por uma
manobra política: um destaque que derrubava o voto secreto foi rejeitado por
poucos votos, mas o presidente da Câmara reabriu a votação para restabelecê-lo,
sob a justificativa de que muitos parlamentares “não estavam atentos”. Essa
movimentação reforçou a percepção de que a prioridade era proteger os próprios
membros, e não a transparência pública.
O ELO CORPORATIVO: DUAS FACES DO MESMO PROJETO
As duas votações mostram dois lados
de uma mesma moeda:
·
Autopreservação Coletiva: aumento de cadeiras para manter ou ampliar o poder das bancadas,
garantindo influência nos próximos anos.
·
Autopreservação Individual: criação de barreiras adicionais para que deputados sejam investigados
ou punidos, blindando cada parlamentar.
O contraste com as expectativas da sociedade é evidente. Em um momento
de crise econômica e descrédito político, o Congresso escolheu fortalecer sua
estrutura interna e reduzir o alcance de mecanismos de controle externo.
O “quando eles se
juntam” não é metáfora: é o retrato de uma ampla coalizão de interesses, onde
direita e esquerda se unem em torno de um objetivo comum — autoproteção.
As duas votações
aprofundam o fosso entre representantes e representados e reforçam a percepção
de que o Legislativo atua em primeiro lugar para si mesmo. Ao ampliar o número
de deputados e blindar os mandatos, a Câmara envia um recado de
autossuficiência e resistência a pressões externas, sejam elas do Judiciário ou
da sociedade civil.
Para analistas,
esse duplo movimento representa um risco à democracia: amplia o poder sem
ampliar a responsabilidade. A resposta esperada é uma sociedade mais vigilante
e exigente quanto à transparência, sob risco de a imunidade parlamentar se
transformar, de fato, em impunidade.



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