Por: Abner Santos
Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, o tema “ataques dos EUA à Venezuela” deixou de ser apenas uma expressão associada a sanções, operações encobertas e pressão diplomática e passou a incorporar um episódio descrito por grandes veículos internacionais como ataques militares em múltiplos pontos do país, com explosões relatadas em Caracas e em estados como Miranda, Aragua e La Guaira. A crise ganhou contornos ainda mais graves após declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, alegando a captura de Nicolás Maduro e de sua esposa e a remoção deles do território venezuelano — uma afirmação que, na cobertura inicial, aparece cercada de lacunas de verificação e disputas narrativas, com Caracas denunciando “agressão militar” e decretando estado de emergência.
O episódio, se confirmado em seus elementos centrais, representa uma mudança de patamar: de uma estratégia que, por anos, combinou asfixia financeira, isolamento internacional e ações de baixa visibilidade, para uma ação cinética aberta com impacto imediato na soberania venezuelana — e potencial de efeito dominó regional (migração, energia, fronteiras, alinhamentos geopolíticos).
ANTES DO “ATAQUE”: A LONGA ARQUITETURA DE PRESSÃO
Até aqui, a relação EUA–Venezuela foi marcada por três eixos principais:
Sanções econômicas e financeiras
O arcabouço de sanções se expandiu significativamente a partir de 2017–2019, incluindo medidas que bloqueiam ativos e restringem transações relacionadas ao governo venezuelano. O próprio governo dos EUA mantém páginas oficiais com a base normativa (ordens executivas) e orientações de implementação.
No Congresso, análises recentes também descrevem como a política evoluiu e quais instrumentos foram adicionados (inclusive medidas comerciais relacionadas ao petróleo venezuelano).Coerção jurídico-policial e narrativa de “narcoterrorismo”
Autoridades americanas enquadraram integrantes do alto escalão venezuelano em acusações criminais — um componente que se mistura à estratégia de deslegitimação e isolamento do regime.Ações encobertas, tentativas e “zona cinzenta”
A Operação Gideon (2020) — tentativa frustrada de incursão por mar envolvendo dissidentes e uma empresa de segurança privada com americanos entre os capturados — permanece como símbolo do ecossistema de iniciativas “irregulares”, disputas de autoria e alegações cruzadas sobre conhecimento prévio e conexões políticas.
Mais recentemente, reportagens registram declarações de Trump sobre operações contra alvos ligados ao narcotráfico em território venezuelano no fim de 2025, num contexto de escalada prévia.
E OS ATAQUES A OUTROS PAÍSES: O QUE MUDOU E MELHOROU?”
A pergunta é direta, mas a resposta é, inevitavelmente, ambivalente: intervenções americanas têm casos de resultado tático rápido e outros em que o saldo histórico aponta instabilidade prolongada. Em termos jornalísticos, vale separar “melhoras pontuais” (curto prazo) de “melhoras estruturais” (instituições, segurança, crescimento inclusivo), que são muito mais raras.
Padrões recorrentes observados em intervenções dos EUA
Mesmo sem esgotar o histórico (há listas acadêmicas de intervenções ao longo de décadas), alguns padrões se repetem: objetivos declarados elevados, vitórias militares iniciais, e dificuldades no “dia seguinte”.
1) Quando há melhora
Derrubada de um governo / mudança de regime: pode ser rápida, mas não garante governabilidade.
Interrupção imediata de um evento (ex.: cessar massacres, impedir anexação, desmontar infraestrutura militar específica): resultados mais mensuráveis no curto prazo.
Reforço de alianças e presença estratégica: “melhora” aqui é do ponto de vista do interesse geopolítico dos EUA, não necessariamente do bem-estar doméstico do país alvo.
2) Quando a promessa de “melhora” vira disputa histórica
Reconstrução institucional: eleições e novas constituições não significam Estado funcional.
Segurança pública: a queda de um regime pode abrir vácuos, insurgências e fragmentação armada.
Economia: sanções e guerra frequentemente degradam infraestrutura, moeda e serviços essenciais, e os ganhos (se houver) são assimétricos.
EXEMPLOS COMPARATIVOS
Panamá (1989) e Granada (1983) são frequentemente citados como intervenções com resultado militar rápido e reorganização política relativamente breve, mas com forte debate sobre legalidade, soberania e custo humano.
Kosovo/OTAN (1999) é lembrado como caso em que o uso da força foi associado a evitar agravamento de crise humanitária, mas o pós-conflito gerou disputas duradouras sobre status político e precedentes internacionais.
Afeganistão (2001–2021): sucesso inicial em derrubar o regime talibã, seguido por duas décadas de guerra e retorno do Talibã ao poder após a retirada — um exemplo forte de como a “melhora” pode ser reversível.
Líbia (2011): mudança de regime com fragmentação posterior, milícias e instabilidade prolongada — frequentemente citada como alerta sobre o “pós-intervenção”.
O ponto central: há casos em que algo “melhora” (um ditador cai, um massacre é contido, uma ameaça imediata recua), mas a conversão disso em ordem democrática estável depende de fatores que a potência intervencionista raramente controla: pactos internos, coesão das forças de segurança, economia, legitimidade do novo arranjo e envolvimento de atores regionais.
A INVASÃO DO IRAQUE E O LABORATÓRIO DO “DIA SEGUINTE”
A invasão do Iraque em março de 2003, liderada pelos EUA, é um divisor de águas porque concentrou, em escala máxima, o debate sobre:
justificativa (armas de destruição em massa e vínculos com terrorismo),
legalidade e legitimidade internacional, e
custos humanos e geopolíticos de longo prazo.
Fontes de referência histórica registram que o governo Bush apresentou o ataque como necessário e em prazo curto — com ultimato a Saddam Hussein e início das operações em 20 de março de 2003.
O que os EUA diziam que iriam alcançar
Eliminar armas de destruição em massa (WMD).
Enfraquecer redes terroristas.
Promover uma transição que serviria de “modelo” regional.
O QUE O TEMPO MOSTROU (EM LINHAS GERAIS)
A fase militar inicial foi rápida, mas a ocupação enfrentou insurgência, colapso de segurança e disputa sectária.
O conflito remodelou o Oriente Médio e repercutiu em ondas: deslocamentos populacionais, reconfiguração de alianças, expansão de atores armados e, mais tarde, condições que diversos analistas relacionam ao ambiente em que grupos extremistas ganharam força.
No plano político, o Iraque passou a conviver com tensões entre soberania formal e influência externa, além de crises recorrentes de governabilidade.
“MELHOROU O PAÍS ATACADO?”
Depende do indicador, do período e de quem responde:
Melhoras possíveis: fim do regime de Saddam Hussein; construção de novos arranjos institucionais; momentos de expansão econômica ligados ao petróleo.
Deteriorações relevantes: violência prolongada, fragmentação política, vulnerabilidade de minorias e custos humanos massivos.
Em suma, o Iraque é frequentemente usado como o exemplo de que “ganhar a guerra” não é o mesmo que “ganhar a paz” — e de que a promessa de “melhora” após intervenção precisa ser confrontada com o desenho do pós-guerra (segurança, administração pública, justiça transicional, reconstrução e legitimidade).
País |
Período / Evento |
Objetivo declarado pelos EUA |
Forma de intervenção |
Resultado imediato |
Efeitos de médio e longo prazo |
“Melhorou” o país atacado? |
Venezuela |
2017–2026 (sanções; escalada militar em 2026) |
Restaurar a democracia; combater narcotráfico; conter influência de atores rivais |
Sanções econômicas severas; isolamento diplomático; operações encobertas; ataques militares pontuais (2026) |
Pressão econômica extrema; choque político; instabilidade institucional |
Crise humanitária agravada; colapso de serviços; migração em massa; disputa de legitimidade; risco de fragmentação |
Não (até o momento). Houve aprofundamento da crise social e institucional |
Iraque |
2003–2011 (invasão e ocupação) |
Eliminar armas de destruição em massa; combater terrorismo; promover democracia |
Invasão militar em larga escala; ocupação prolongada |
Queda rápida do regime de Saddam Hussein |
Guerra civil sectária; insurgência; instabilidade crônica; milhares de mortes; influência regional ampliada de outros atores |
Parcial e controverso. Ditadura caiu, mas a violência e a instabilidade aumentaram |
Líbia |
2011 (OTAN liderada pelos EUA) |
Proteger civis; impedir massacre; apoiar transição política |
Ataques aéreos; apoio indireto a forças rebeldes |
Derrubada e morte de Muammar Gaddafi |
Estado fragmentado; milícias armadas; colapso institucional; rotas de tráfico e migração |
Não. O país entrou em ciclo prolongado de caos |
Afeganistão |
2001–2021 |
Combater a Al-Qaeda; derrubar o Talibã; estabilizar o país |
Invasão militar; ocupação de 20 anos; construção institucional |
Queda inicial do Talibã |
Retorno do Talibã após retirada; fragilidade do Estado; crise humanitária |
Não. Ganhos institucionais foram revertidos |
Leitura analítica do quadro
1) Objetivos declarados × resultados reais
Há um descompasso recorrente entre o discurso oficial (democracia, direitos humanos, segurança) e os resultados estruturais. A vitória militar inicial raramente se converte em estabilidade política sustentável.
2) O “efeito dominó” pós-intervenção
Os quatro casos mostram padrões semelhantes:
Vácuo de poder após a queda de regimes;
Fragmentação armada e disputa interna;
Custos humanitários elevados;
Dependência externa ou influência de novos atores regionais.
3) O critério decisivo: o “dia seguinte”
Quando inexistem:
pacto político interno,
forças de segurança unificadas,
reconstrução econômica consistente,
a intervenção tende a substituir uma crise por outra, frequentemente mais difusa e duradoura.
A COLETIVA DE TRUMP E AS EXPLICAÇÕES OFICIAIS
Na manhã de 3 de janeiro de 2026, em seu clube Mar-a-Lago (Flórida), Trump concedeu uma coletiva amplamente divulgada para explicar a operação militar dos EUA que capturou Nicolás Maduro e sua esposa — e detalhar os planos dos EUA para a Venezuela.
PONTOS CENTRAIS DA FALA DE TRUMP
“Os EUA vão governar a Venezuela temporariamente.”
Trump declarou: “We’re going to run the country until such time as we can do a safe, proper and judicious transition.” Ou seja, o governo americano pretende administrar a Venezuela até que seja estabelecida uma “transição segura”.Justificativa da operação: “liberdade para o povo” e combate ao narcotráfico
Ele descreveu a missão como “uma demonstração impressionante de poder e competência americana”, afirmando que a ação visava prender Maduro, acusado de narcoterrorismo, e pôr fim ao que chamaram de “narco-Estado”.Garantia de que não houve baixas americanas
Trump ressaltou que nenhum militar dos EUA morreu e nenhum equipamento foi perdido durante a operação. Ele disse que a ação envolveu “muitos helicópteros, muitos aviões, muitas pessoas” e completou: “se você tivesse visto o que eu vi ontem à noite, teria ficado muito impressionado.”Controle da indústria petrolífera venezuelana por empresas americanas
Ao ser perguntado sobre o futuro do setor de petróleo da Venezuela, Trump disse que as maiores empresas de petróleo dos EUA “irão reconstruir a infraestrutura que estava quebrada” e que os EUA “irão se envolver fortemente” nesse processo.Possibilidade de nova onda militar se necessário
Ele afirmou que os EUA haviam preparado uma “segunda onda” de ataque, que por enquanto não seria necessária, mas deixou claro que a opção permanece aberta.Afirmação de que a operação tem respaldo de autoridade executiva, não de consenso internacional ou congresso
A coletiva não mencionou autorização prévia de legislativos ou organismos internacionais — Trump argumentou que, sob seus poderes como comandante-chefe, os EUA tinham o direito de agir diretamente contra ameaças.Justiça internacional para Maduro e seus aliados
Ele anunciou que Maduro e sua esposa seriam levados aos EUA (Nova York) para responder processos criminais alegando narcotráfico e crimes associados, resultantes de uma nova acusação formal.
COMO ESSAS DECLARAÇÕES REPERCUTEM — TENSÕES, CRÍTICAS E INCERTEZAS
A intenção declarada de “governar” a Venezuela até impor uma transição provoca críticas imediatas de parlamentares nos EUA, que consideram a operação ilegal por não ter passado pelo Congresso — muitos a classificam como “ato de guerra” unilateral.
No plano internacional, repudiações vêm de governos aliados à Venezuela — por violação de soberania e pilar do direito internacional — enquanto alguns países opositores ao regime venezuelano veem a ação como possível “resgate democrático”.
A promessa de reconstrução da indústria petrolífera por companhias americanas reacende o histórico de disputa por recursos estratégicos: críticos apontam que o controle sobre petróleo pode se tornar o real objetivo da intervenção, não apenas a suposta justiça ou democracia.
A ausência de detalhes concretos sobre o governo de transição — quem comandará no dia a dia, quem garante a segurança, como será feita a reconstrução institucional — deixa um vácuo de governança. Mesmo após a captura, o antigo governo aparenta ainda ter estruturas vivas e há incerteza sobre a real capacidade dos EUA de “administrar” o país.
CONCLUSÃO
A captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos não encerra a crise venezuelana — ao contrário, inaugura uma nova fase, mais complexa e arriscada, tanto para o país quanto para a ordem internacional. O episódio rompe definitivamente com o ciclo de sanções e pressões indiretas e estabelece um precedente de intervenção direta, com implicações que ultrapassam a disputa política local.
A coletiva do presidente Donald Trump explicitou esse deslocamento: ao assumir publicamente a intenção de administrar temporariamente a Venezuela e de intervir em setores estratégicos como o petróleo, o governo americano transformou uma ação militar em projeto político declarado. Essa franqueza, embora rara, amplia o debate sobre legalidade, soberania e limites do poder no sistema internacional.
A experiência histórica das intervenções dos EUA em outros países demonstra que vitórias militares iniciais raramente se convertem, por si só, em estabilidade duradoura. No curto prazo, há ruptura de regimes e reorganização forçada; no médio prazo, disputas internas, fragilidade institucional e dependência externa; no longo prazo, frequentemente, ciclos de instabilidade que cobram alto preço social e humano. A Venezuela, já marcada por colapso econômico e crise humanitária, entra agora nesse terreno incerto.
O desfecho dependerá menos da eficácia da operação que capturou Maduro e mais do “dia seguinte”: da capacidade de construir legitimidade interna, preservar serviços essenciais, evitar a fragmentação armada e respeitar normas mínimas do direito internacional. Sem esses elementos, a promessa de libertação pode se converter em tutela prolongada, e a retórica de transição, em instabilidade crônica.
Em última instância, o que está em jogo não é apenas o futuro da Venezuela, mas a própria arquitetura das relações internacionais no século XXI. Se a captura de um chefe de Estado e a administração externa de um país se tornarem práticas aceitáveis, o princípio da soberania — já pressionado por conflitos recentes — pode sofrer um abalo estrutural. A história, como sempre, será o juiz final.
E A VENEZUELA AGORA: O QUE PODE MUDAR (E QUAIS RISCOS SÃO IMEDIATOS)
Dado o noticiário deste 3 de janeiro de 2026, os cenários mais citados por analistas, governos e observadores tendem a girar em torno de:
Escalada regional: reação de aliados do governo venezuelano e aumento de tensão em fronteiras e rotas energéticas.
Disputa de legitimidade: quem governa, com qual base legal, e sob que reconhecimento internacional.
Efeito humanitário e infraestrutura: ataques em áreas urbanas e instalações sensíveis podem produzir interrupções de energia, deslocamentos e impactos civis.
Precedente jurídico: questionamentos internos nos EUA sobre autorização e legalidade, e pressões externas em organismos multilaterais.
O que “melhora” ou “piora” vai depender menos do choque inicial e mais do arranjo político que vier depois: transição negociada ou imposta; capacidade de manter serviços básicos; e se o país entra num ciclo de fragmentação similar ao observado em outros casos pós-intervenção.



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