Pular para o conteúdo principal

Mais de 30 dias após morte de Bernardo em Conchal: mãe quebra o silêncio, investigação avança e caso expõe pressão sobre hospital e poder público

Família relata dor persistente e afirma que deslize no sistema público quase colocou frente a frente a mãe da vítima e o médico que participou do atendimento no dia da morte; Polícia Civil, hospital e Prefeitura detalham medidas adotadas após o caso

Pouco mais de 30 dias após a morte do menino Bernardo, em decorrência de uma picada de escorpião em Conchal, o caso segue provocando repercussão e mobilizando diferentes frentes de investigação, manifestações públicas e ações institucionais. O episódio, que gerou forte comoção nacional, passou a reunir discussões envolvendo saúde pública, protocolos de atendimento médico, manejo de animais peçonhentos, estrutura hospitalar, prevenção urbana e responsabilidade institucional.

Enquanto a Polícia Civil conduz um inquérito para apurar as circunstâncias do atendimento prestado, a família relata que o luto permanece intenso e que as consequências emocionais ainda fazem parte da rotina diária. Paralelamente, o Hospital e Maternidade Madre Vannini confirmou a abertura de sindicância interna, e a Prefeitura de Conchal afirma ter ampliado ações de limpeza, fiscalização, combate a escorpiões e avaliação da rede de atendimento.

Família relata dor persistente e cobra mudanças permanentes

Em entrevista ao F5, a mãe de Bernardo,.Ingrid Micaela de Lima, descreveu um cenário de sofrimento contínuo desde a perda do filho. Segundo ela, a dimensão emocional da tragédia ainda não foi assimilada.

“Pra mim ainda parece que ele vai entrar aqui dentro de casa a qualquer momento. Eu fecho o olho e sinto como se ele estivesse deitado comigo”, relatou.

A mãe afirmou que ainda busca o quarto do filho com frequência, mesmo recebendo orientação profissional para evitar esse comportamento durante o período inicial do luto.

Ao comentar a repercussão do caso, Ingrid Micaela disse ter recebido inúmeras mensagens de apoio e solidariedade, além de perceber maior preocupação das pessoas em relação aos riscos envolvendo crianças e animais peçonhentos.

“Eu tenho recebido muitas mensagens. E eu senti que as pessoas estão mais preocupadas com as crianças, mais atentas ao ambiente onde elas ficam”, afirmou.

Apesar disso, a família avalia que parte das ações públicas observadas após o caso ocorreu apenas em razão da repercussão.

“Se isso fosse feito todo mês com a mesma intensidade, a cidade seria muito mais limpa e não teria tantos animais peçonhentos”, disse Micaela, ao comentar ações de limpeza urbana e manejo ambiental realizadas posteriormente no município.

O pai de Bernardo, Paulo Mendes, reconheceu a importância das medidas adotadas, mas demonstrou preocupação quanto à continuidade dessas ações.

“Daqui a alguns meses, tudo pode ser esquecido de novo. A gente não pode depender de outra tragédia para que as coisas voltem a acontecer”, afirmou.

Segundo ele, problemas estruturais e falhas na manutenção urbana já vinham sendo observados anteriormente.

“Um joga para o outro e ninguém resolve o problema. O mato aqui na frente era uma das maiores preocupações”, declarou.

A família também relatou desconforto com intervenções realizadas nas proximidades da residência durante o período do sepultamento da criança.

“Eu acabei de enterrar meu filho e estavam fazendo barulho aqui na frente, limpando o mato. Parecia mais preocupação com a aparência do local por conta das imagens que estava saindo na imprensa, do que com o momento da família”, afirmou a mãe.

Outro episódio citado pela família envolve um encaminhamento realizado posteriormente pela rede pública de saúde. Segundo Micaela, ao procurar atendimento psicológico, ela teria sido direcionada para consulta com um profissional que estaria ligado ao atendimento inicial do filho no dia da ocorrência.

“Quando eu li o nome, eu saí tremendo. Eu não tinha condições de dar de cara com ele”, relatou.

Segundo a família, o encaminhamento foi revisto posteriormente por profissionais da unidade de saúde do bairro, que realizaram novo direcionamento.

“Se eu tivesse ido, eu não sei o que teria acontecido. Eu já estava passando mal só de imaginar”, completou.

A família também citou iniciativas criadas após o caso, como a plataforma “SORO JÁ”, desenvolvida para auxiliar a população na localização de unidades que possuem soro antiescorpiônico em diferentes regiões do país.

Ainda assim, Paulo Mendes reforçou que medidas estruturais permanentes são indispensáveis.

“Não adianta ter iniciativa agora e depois tudo voltar a ser como era. Tem que ter continuidade”, disse.

Ele também afirmou que pretende acompanhar o caso até a conclusão das investigações.

“Eu vou até o fim. Pode custar o que custar. Alguma coisa vai ter que ser feita.”

Micaela afirmou que, apesar da perda irreversível, pretende transformar a experiência em alerta para outras famílias.

“Eu não vou ter meu filho de volta. Mas o que eu puder orientar as pessoas, eu vou orientar.”

A família também reforçou orientações preventivas sobre acidentes envolvendo escorpiões.

“Pode estar dentro de um sapato, dentro de um brinquedo. A gente nunca espera que aconteça”, alertou a mãe.

Além das responsabilidades do poder público, os familiares defendem que a prevenção também depende da participação coletiva da população.

“Não é só a prefeitura. As pessoas também precisam observar mais”, afirmou.

Polícia Civil instaura inquérito e aguarda informações técnicas

Paralelamente aos relatos da família e à repercussão pública do caso, a Polícia Civil de Conchal confirmou a instauração de inquérito policial para apurar as circunstâncias da morte de Bernardo.

O delegado responsável pela investigação, Dr. Luis Henrique Lima Pereira, afirmou ao F5 que o procedimento foi instaurado após a publicação das primeiras reportagens sobre o caso.

“O inquérito foi instaurado com base na sua reportagem. Foi a partir dali que tivemos conhecimento dos fatos e da possível negligência médica”, declarou.

Segundo o delegado, a família já foi oficialmente ouvida, e materiais produzidos pelo F5 passaram a integrar o procedimento investigativo.

“A família já foi ouvida, e aquele vídeo que você {F5} gravou com o pai faz parte do inquérito”, explicou.

A Polícia Civil também confirmou a análise do prontuário médico relacionado ao atendimento prestado à criança.

Além disso, testemunhas presentes na unidade hospitalar durante o atendimento foram identificadas.

“A gente já identificou testemunhas, pacientes que estavam dentro do hospital e que acompanharam a dificuldade da criança em ser atendida”, afirmou o delegado.

Neste momento, a investigação concentra esforços na obtenção de dados técnicos antes da realização das oitivas dos profissionais diretamente envolvidos no atendimento.

Entre os órgãos acionados está o CiaTox (Centro de Informação e Assistência Toxicológica), responsável por orientação técnica em casos envolvendo intoxicações e acidentes com animais peçonhentos.

“Solicitamos informações sobre o protocolo que deveria ter sido adotado e também sobre o possível acionamento do CiaTox”, explicou.

O Instituto Butantan também foi consultado para fornecer informações técnicas sobre procedimentos indicados em casos de envenenamento por escorpião.

Segundo o delegado, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) também recebeu solicitação de informações relacionadas a horários, acionamentos e equipes envolvidas no atendimento.

“Estamos nesse momento de levantamento de dados técnicos para, na sequência, avançar nas oitivas”, concluiu.

Hospital confirma sindicância interna e diz que profissionais seguem atuando

Enquanto o inquérito policial segue em andamento, o Hospital e Maternidade Madre Vannini informou ao F5 que instaurou procedimento interno para apuração dos fatos.

Os questionamentos foram enviados pelo F5 no dia 31 de março, e a resposta oficial da instituição, por meio da representante jurídica da Associação Filhas de São Camilo, foi encaminhada em 14 de abril.

Segundo o hospital, foi instaurada sindicância para avaliação dos fatos ocorridos durante o atendimento.

“Conforme protocolo de nossa instituição, foi instaurada sindicância para apuração dos fatos ocorridos nas dependências do Hospital e coleta de informações que sejam relevantes para a avaliação de eventuais responsabilidades.”

A instituição informou ainda que os trabalhos seguem em andamento e contam com participação do corpo diretivo e administrativo do hospital.

“Tais apurações, desenvolvidas com a participação do corpo diretivo e de administração do Hospital e conduzidas mediante critérios técnicos e legais, ainda estão em curso e serão concluídas quando reunidas as informações suficientes para a elucidação do caso.

O F5 também questionou a instituição sobre eventual afastamento cautelar, remanejamento ou supervisão reforçada de profissionais envolvidos diretamente no atendimento.

Em resposta, o hospital afirmou que não identificou, até aquele momento, necessidade de afastamento.

“Informamos que, em função da apuração dos fatos ocorrida até o presente momento e especialmente para evitar quaisquer prejuízos à regularidade de atendimentos hoje prestados pelo Hospital à população, não há razão para o afastamento dos profissionais que se dedicaram ao atendimento do paciente e à toda a comunidade da região.”

Prefeitura afirma ter ampliado ações de combate a escorpiões e limpeza urbana

Após a repercussão do caso, a Prefeitura de Conchal informou ter intensificado ações relacionadas ao combate a escorpiões, limpeza urbana, dedetização preventiva e fiscalização de terrenos.

Segundo a administração municipal, equipes da Vigilância em Saúde e da Seção de Controle de Zoonoses realizaram aplicação de repelente em residências do Jardim Santa Luzia, especialmente em locais considerados estratégicos para abrigo de escorpiões, como ralos, frestas, encanamentos e rodapés.

A Prefeitura também informou a realização de operações conhecidas como “vassoura de fogo” em áreas localizadas ao fundo do bairro Santa Luzia, com acesso pela empresa Cutrale.

De acordo com o município, na terceira operação realizada no local foram capturados 10 escorpiões, sendo oito adultos e dois filhotes.

A administração municipal afirmou ainda que profissionais da equipe de Zoonoses participaram de treinamento técnico em Serra Negra voltado ao manejo de escorpiões em cemitérios e outras áreas urbanas.

Outro ponto citado pela Prefeitura envolve a investigação epidemiológica relacionada ao acidente escorpiônico.

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, foram realizadas visitas à residência da família e levantamento de informações junto à Associação Filhas de São Camilo (Madre Vaninni).

A Prefeitura também informou que a Vigilância Epidemiológica de Araras realizou análise detalhada do prontuário do paciente desde a admissão na Santa Casa de Araras até a constatação do óbito.

Em nota, a administração municipal confirmou ainda que solicitou ao Departamento Regional de Saúde (DRS) a possibilidade de Conchal tornar-se ponto estratégico para armazenamento e disponibilização do soro antiescorpiônico. Segundo a Prefeitura, o município aguarda resposta oficial sobre o pedido.

Além das ações de saúde, a administração municipal também divulgou balanço da Operação Mobiliza Conchal, mutirão de limpeza urbana realizado em diferentes bairros da cidade.

Segundo os dados apresentados em 30/04/2026, foram recolhidas 841,880 toneladas de resíduos e entulhos ao longo de nove dias de operação, com 231 caminhões descarregados no aterro municipal.

A Prefeitura também informou ampliação da fiscalização de terrenos baldios, imóveis abandonados, descarte irregular de resíduos e mato alto. Segundo levantamento divulgado, 235 lotes foram mapeados para notificações e eventual aplicação de multas.

O município afirma que as ações seguirão de forma permanente, com foco em prevenção de doenças, combate a animais peçonhentos e fortalecimento das condições sanitárias da cidade.


Comentários

Mais lidas

Guarda Municipal prende mulher por tráfico no Parque Industrial, em Conchal

Adolescente é detido com drogas durante ação da GCM e PM nos Predinhos, em Conchal

Investigado por estupro coletivo contra duas crianças em SP afirmou que crime foi cometido “por zoeira”, diz delegado

Anvisa determina recolhimento de produtos da Ypê por risco de contaminação; empresa fala em 'decisão arbitrária' e diz que vai recorrer

Novo Desenrola começa a valer nesta terça-feira (05)