Lagoas de água doce com peixes e vegetação surgiram às margens do Mar Morto, reacendendo debates entre cientistas e religiosos; especialistas atribuem o fenômeno a mudanças geológicas naturais
Um fenômeno considerado incomum nas margens do Mar Morto voltou a chamar a atenção de pesquisadores e de grupos religiosos ao redor do mundo. O aparecimento de lagoas de água doce com peixes, vegetação e aves em áreas próximas ao lago mais salgado do planeta levou parte dos fiéis a relacionar o evento ao cumprimento de antigas profecias bíblicas descritas no livro de Ezequiel. Já a comunidade científica afirma que as mudanças possuem explicação geológica e não representam uma transformação das águas do Mar Morto.
Conhecido pela elevada concentração de sal — cerca de dez vezes superior à dos oceanos — o Mar Morto sempre foi considerado um ambiente praticamente incapaz de sustentar vida aquática. Nos últimos anos, entretanto, pequenas lagoas de água doce passaram a surgir em diferentes pontos de suas margens, permitindo o desenvolvimento de plantas, insetos, aves e pequenos peixes.
As imagens ganharam repercussão internacional após registros feitos pelo fotógrafo israelense Noam Bedein, que documentou peixes nadando em algumas dessas lagoas. Embora muitos tenham interpretado o fato como um sinal de que o Mar Morto estaria "ganhando vida", os pesquisadores esclarecem que os animais vivem apenas nessas poças isoladas de água doce, sem contato com as águas extremamente salinas do lago principal.
Explicação científica
De acordo com estudos realizados pelo Instituto Geológico de Israel (GSI), o fenômeno está relacionado ao contínuo recuo do nível do Mar Morto, que vem diminuindo há décadas.
Com a redução das águas, aquíferos subterrâneos passaram a emergir na superfície. Essa água doce dissolve antigos depósitos subterrâneos de sal, formando crateras conhecidas como dolinas. Muitas dessas depressões acabam sendo preenchidas por nascentes naturais, dando origem às lagoas de água doce onde hoje é possível observar vegetação e fauna.
Segundo levantamentos geológicos, mais de 9 mil dolinas já foram identificadas apenas na margem israelense do Mar Morto. Algumas delas provocaram o fechamento de estradas e áreas turísticas devido ao risco de colapso do solo.
Os especialistas ressaltam que não há evidências de que o Mar Morto tenha perdido sua elevada salinidade. As lagoas permanecem separadas do lago principal e são abastecidas exclusivamente por água doce subterrânea.
Interpretações religiosas
Apesar da explicação científica, o fenômeno reacendeu interpretações religiosas baseadas principalmente no capítulo 47 do livro de Ezequiel.
Na passagem bíblica, o profeta descreve um rio que fluiria em direção ao mar, tornando suas águas saudáveis e permitindo o surgimento de abundante vida aquática, árvores frutíferas e pescadores onde antes não havia vida. O texto também menciona que "tudo viverá por onde passar esse rio".
Outro trecho frequentemente citado por grupos religiosos está no livro de Zacarias, que menciona "águas vivas" fluindo de Jerusalém em direção ao chamado "mar oriental", identificado por parte dos estudiosos como o Mar Morto.
Nas redes sociais, vídeos mostrando as lagoas e os peixes passaram a ser compartilhados como possível sinal do cumprimento dessas profecias, ampliando o debate entre interpretações religiosas e explicações científicas.
Mar Morto continua extremamente salgado
Os pesquisadores enfatizam que o fenômeno não indica que o Mar Morto esteja se transformando em um lago de água doce.
A elevada concentração de sal permanece praticamente inalterada, tornando suas águas inóspitas para peixes e para a maior parte dos organismos aquáticos. A vida observada atualmente limita-se às lagoas alimentadas por nascentes subterrâneas, que permanecem isoladas do lago principal.

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