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'Eu preciso ouvir vocês': professora se envolve com dramas de alunos da periferia de Belém e tem reconhecimento mundial



A viralização na internet de uma campanha para levar alunos a uma sessão do filme "Pantera negra", em 2018, serviu para mais do que proporcionar uma experiência diferente e inspiradora para estudantes da periferia de Belém: chamou atenção para o valioso trabalho da professora Lília Melo em uma região que enfrenta barreiras de vários tipos para manter os jovens na escola.



O reconhecimento que chegou com a conquista do prêmio Professores do Brasil, do Ministério da Educação, e a indicação ao Global Teacher Prize, entre os 50 finalistas mundiais, veio de um esforço de Lília, de 43 anos, para motivar alunos que convivem com casos de violência na Terra Firme, bairro no sul da capital paraense.

Ela começou a trabalhar na região em 2008. O contato da professora com a brutalidade aconteceria mais tarde. A primeira impressão na chegada ao bairro foi a falta de recursos para proporcionar um bom ambiente escolar - o que empurra o jovem para fora da sala.



"Vim da rede privada. Eu dava aula em uma escola com mensalidade cara e toda uma infraestrutura. Quando, em 2008, comecei a dar aula na Terra Firme, uma cena me chamou a atenção: tinha muito aluno fora da sala de aula. Era uma coisa que me assustava muito", diz.

"Só depois entendi que há várias razões: professores que faltam e não tem outro para substituir, por exemplo, ou não ter um inspetor."



Além da ausência de estrutura para o ensino, a violência é um desafio para a educação em alguns bairros de Belém. Em 2014, uma chacina ocorrida em diferentes locais da cidade atingiu com força Terra Firme.

"Foram 11 pessoas assassinadas. Quando alguém morre em uma família, isso implica mudança em vários aspectos. Como é que eu poderia retornar para a sala de aula ignorando essas mortes? Então parei tudo, parei o conteúdo e disse: eu quero ouvir vocês, eu preciso ouvir vocês", conta.



Depois da tragédia

O “Juventude periférica: do extermínio ao protagonismo!” surge meses depois da tragédia, em janeiro de 2015. O projeto incentiva jovens a falar de sua identidade e seu cotidiano por meio da produção de filmes e documentários, além de desenvolver núcleos de teatro, dança e arte visual. Nas ruas do bairro são exibidas as criações dos alunos.

Lília Melo fala também na importância de envolver os pais.



"Me dei conta de que precisava trazer os pais para dentro da conversa. Eu tenho três filhos e também tenho dificuldades para educá-los. Mas eu percebi que estava perdendo meninos e meninas para a depressão que não era enxergada pela família ou vista como frescura."

A questão da saúde mental dos jovens, que vem sendo fonte de preocupação nos últimos anos, também é algo para ficar no radar dos educadores. O suicídio de um aluno de 14 anos em 2018 tirou a alegria das premiações que vinha recebendo.



"Depois que essa pessoa se mata, aos 14 anos, mais uma vez eu fecho a sala para debater por que isso ocorreu. Fui descobrir que o menino sofria bullying e era alvo de homofobia."

Ela relembra uma roda de conversa no 9° ano em que oito meninas relataram abuso sexual por familiares.



"E aí, como a gente faz? Já peitei muito esse tipo de situação. Mas o que acontece: o cara é traficante, é influente na área e, no final das contas, há um grande acordo de toda uma família para deixar para lá. Então o caminho dessa vítima é a poesia, é aí que ela respira. E ela acredita, e eu acredito com ela, que quando ela começar a vender livros e ganhar a partir dessa arte, ela vai sair disso e vai trazer muitas mulheres com ela."

Esse confronto com a realidade local gerou situações tensas. "Meus filhos tiveram que me ver com a arma na cabeça. Os caras encapuzados que vieram para me exterminar, do tipo: vai embora daqui. Já passei por muita coisa, mas não saio da Terra Firme."



A pandemia

As restrições impostas pela pandemia da Covid-19 aumentaram mais as dificuldades em bairros pobres em todo o Brasil. Educação a distância (EaD) esbarrou na falta de formação dos professores para a tarefa e de recursos para todos os envolvidos.

"O professor foi aprendendo como deu e dispondo dos próprios equipamentos tecnológicos. Isso não é EaD, é uma situação emergencial", afirma Lília Melo.



"Quem está aqui embaixo está fazendo com muito amor. Inclusive eu sempre digo nas lives: professor, calma! Nós fizemos tudo o que podíamos. Uma categoria inteira adoece porque houve um esgarçamento muito grande. Nunca um professor trabalhou tanto."

Com o aumento da violência doméstica no período de quarentena, a professora colocou, junto com cestas básicas que foram distribuídas a famílias carentes, uma carta coletiva com palavras de conforto e orientação sobre como denunciar caos de agressão física.



"Então, por incrível que pareça, no isolamento social a gente conseguiu perceber a força que o coletivo tem para dar importância ao outro."

É a crença na possibilidade de mudança. "Educação é instrumento de transformação social. E eu tô vendo, está acontecendo", diz Lília.

*Com informações de G1.




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