Navios-tanque
da chamada "frota fantasma" da Rússia abastecem o Brasil com
combustíveis de origem russa desde 2022, ano em que o país comandado por Vladimir
Putin invadiu a Ucrânia.
Uma
investigação conduzida pela BBC News Brasil ao longo de quatro meses
identificou que o fluxo destes navios em direção ao Brasil continua mesmo
depois que governos como o dos Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia
impuseram sanções econômicas contra essas embarcações.
Não
foi possível identificar as empresas que importaram o combustível trazido pela
"frota fantasma", porque essa informação é protegida por sigilo
fiscal. No entanto, a BBC News Brasil conseguiu rastrear e identificar os
principais terminais portuários que receberam esses produtos. Eles ficam nos portos
de Paranaguá e de Santos.
"Frota
fantasma" é o nome usado por especialistas e autoridades americanas e
europeias para designar um conjunto de navios-tanque usado para exportar
combustíveis russos depois que a Rússia passou a ser alvo de sanções
internacionais por conta da guerra na Ucrânia. Atualmente esses navios estão
sob sanção dos Estados Unidos, Reino Unido, União Europeia, dentre outros
países.
O
termo "fantasma" se deve ao fato de que elas adotarem uma série de
manobras para dificultar a identificação de seus verdadeiros donos e até mesmo
as rotas usadas em alto-mar.
Segundo
governos de países ocidentais, esta frota ajuda a driblar as sanções e a manter
o fluxo de recursos que financia a ação militar russa por meio do comércio de
petróleo e derivados.
Ao
todo, a investigação da BBC News Brasil identificou 36 navios da "frota
fantasma" russa operando na costa brasileira após cruzar dados de
operações portuárias realizadas em terminais de norte a sul do país com as
listas de navios sancionados pelos governos de Estados Unidos, Reino Unido e
União Europeia.
Como
o Brasil não aderiu às sanções internacionais ao combustível russo, o país
virou um porto seguro para a frota de Putin. Juntas, estas embarcações russas
transportaram 17% de todo o combustível que o Brasil importou do país no
período.
Especialistas
ouvidos pela BBC News Brasil apontam que a operação destes navios traz riscos
econômicos, diplomáticos e ambientais.
Do
ponto de vista ambiental, o principal perigo são os possíveis acidentes.
"Os
navios da frota fantasma são mais antigos, nem sempre navegam com todos os
seguros necessários e seus donos são difíceis de rastrear. Caso aconteça algum
acidente, a cobrança pelos prejuízos seria muito difícil", diz o professor
do Instituto de Oceanografia da Universidade de São Paulo, Alexander Turra.
"Como
esses navios operam com o AIS [sistema automático de identificação] desligado,
é muito difícil a gente responsabilizar um navio que, por exemplo, seja
responsável por um vazamento em alto mar. Foi o que aconteceu com aquele
vazamento que atingiu a costa brasileira em 2019. O navio responsável não usava
o AIS e nunca conseguimos identificar os responsáveis."
Nos
campos diplomático e econômico, os riscos também são significativos, afirmam os
especialistas.
"Qualquer
empresa que estiver fazendo negócios com essas embarcações trazendo
combustíveis da Rússia está financiando a invasão ilegal da Rússia", diz
Benjamin Schmitt, da Universidade da Pensilvânia.
Schmitt,
pesquisador sênior da universidade e fellow do Centre for European Policy
Analysis (CEPA), centro de estudos especializado em segurança energética e
sanções contra a Rússia, afirma que o fato de o Brasil manter um fluxo tão
intenso de compra de combustíveis da Rússia e receber navios da "frota
fantasma" pode transformar o país em um alvo dos Estados Unidos.
A
maior parte das atracações dos navios "fantasmas" russos no Brasil
aconteceu antes de serem sancionados internacionalmente, mas os dados obtidos
pela reportagem mostram que portos brasileiros receberam pelo menos seis navios
transportando combustíveis russos após eles terem sido sancionados. O registro
mais recente aconteceu em julho.
A
BBC News Brasil também identificou que algumas dessas embarcações navegam sem o
transponder (uma espécie de rastreador) ligado, dificultando sua localização e
aumentando os riscos de colisões na costa.
De
acordo com os especialistas, a operação dessas embarcações nos portos
brasileiros pode atrair eventuais sanções de países como os Estados Unidos,
assim como aconteceu com a Índia, sancionada no início de agosto pelo governo
de Donald Trump por suas compras de combustível russo.
A
Rússia é responsável por aproximadamente 60% de todo o diesel importado pelo
Brasil e, desde 2023, se tornou o principal fornecedor do combustível importado
pelo país.
Profissionais
que atuam no setor portuário afirmaram à BBC News Brasil, em caráter reservado,
que o governo brasileiro nunca orientou os portos a restringirem a chegada de
navios suspeitos de pertencer à "frota fantasma".
À BBC News Brasil, a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) disse não ter recebido nenhuma orientação sobre a operação destas embarcações.
A
Marinha, responsável pela segurança da costa brasileira, afirmou adotar
mecanismos para identificação e monitoramento da "frota fantasma",
mas informou que nunca recebeu nenhum tipo de orientação para impedir sua
atracação nos portos do país.
A
Polícia Federal também disse que "não recebeu qualquer orientação
relacionada ao tratamento diferenciado para embarcações sancionadas por países
como os Estados Unidos da América, o Reino Unido e a União Europeia, ou
qualquer outro país, em decorrência da guerra na Ucrânia entre 2022 e
2025".
O
Palácio do Planalto e a Embaixada da Rússia não responderam às perguntas da
reportagem.
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