Brasil está quebrado? O que os números revelam sobre a dívida pública, as reservas internacionais e o bolso do brasileiro
Uma análise sobre a situação financeira do país, os desafios fiscais do governo, o endividamento das famílias e o patrimônio público transferido à iniciativa privada.
Por: Abner SantosNo debate político brasileiro,
é comum ouvir afirmações extremas sobre a economia. De um lado, há quem diga
que o Brasil está quebrado, que o governo não tem dinheiro e que o país caminha
para uma crise financeira inevitável. De outro, há quem destaque as reservas
internacionais, a força das exportações e a capacidade de pagamento do país
para afirmar que não existe motivo para preocupação.
Mas o que os números realmente
mostram?
Para responder, é necessário
separar assuntos que muitas vezes aparecem misturados no debate público: a
dívida externa, a dívida pública interna, as reservas internacionais, os gastos
com juros, o endividamento das famílias e a venda de empresas e ativos
públicos.
Esses indicadores medem
situações diferentes. Um país pode ter reservas internacionais elevadas e, ao
mesmo tempo, enfrentar dificuldades fiscais. Pode manter capacidade de
pagamento no exterior, mas apresentar crescimento preocupante da dívida pública
interna. E pode ter uma economia que continua funcionando enquanto parte de sua
população enfrenta dificuldades para pagar contas e empréstimos.
A análise dos dados
disponíveis até outubro de 2026 aponta justamente para esse cenário: o
Brasil não apresenta as características de um país em situação imediata de
insolvência externa, mas enfrenta desafios fiscais relevantes, especialmente
pelo tamanho da dívida pública e pelo custo dos juros.
O
BRASIL ESTÁ REALMENTE QUEBRADO? ENTENDA A DÍVIDA EXTERNA E AS RESERVAS
INTERNACIONAIS
Antes de afirmar que um país
está quebrado, é preciso entender o significado econômico dessa expressão.
Na prática, um país enfrenta
uma crise de insolvência ou de liquidez externa quando não consegue cumprir
suas obrigações financeiras com credores estrangeiros, especialmente quando
faltam recursos em moeda estrangeira para pagar dívidas, juros e importações.
Isso não significa que toda
dívida represente uma crise. Governos, empresas e famílias contraem dívidas
como parte normal de suas atividades. O problema aparece quando o endividamento
cresce sem capacidade de pagamento ou quando o acesso a financiamento
desaparece.
No caso brasileiro, é
importante observar as reservas internacionais.
As reservas são recursos em
moedas estrangeiras e outros ativos externos mantidos pelo Banco Central.
Funcionam como uma proteção diante de crises cambiais, dificuldades de
financiamento e choques internacionais.
Segundo o Banco Central, as
reservas internacionais brasileiras somaram US$ 362,8 bilhões em setembro de
2026. O valor é expressivo e representa uma importante proteção para a
economia nacional.
Entretanto, reservas
internacionais não significam que o governo tenha esse dinheiro livre para
gastar em despesas do orçamento. Elas são administradas pelo Banco Central e
cumprem uma função de proteção externa e estabilidade financeira.
Outro dado importante é a
balança comercial. Em 2024, o Brasil exportou aproximadamente US$ 337 bilhões e
importou US$ 262,5 bilhões, registrando superávit de US$ 74,6 bilhões.
Isso significa que o país vendeu ao exterior mais mercadorias do que comprou
naquele ano.
Esse resultado fortalece a
entrada de dólares pela comercialização de bens, embora não represente,
sozinho, toda a situação das contas externas.
Também é necessário considerar
os serviços, os juros e os lucros enviados ao exterior. Em setembro de 2026,
por exemplo, o Brasil registrou déficit de US$ 5,1 bilhões nas transações
correntes. No acumulado de 12 meses, esse déficit chegou a US$ 60 bilhões,
equivalente a 2,33% do PIB.
Portanto, o cenário externo
apresenta pontos de proteção importantes, mas também obrigações e
desequilíbrios que precisam ser acompanhados.
Uma ressalva fundamental: não
se deve comparar simplesmente o total das reservas com a dívida externa bruta e
concluir que o país é credor externo líquido. A dívida externa bruta considera
determinados instrumentos de dívida, enquanto a posição internacional líquida
considera um conjunto mais amplo de ativos e passivos de residentes
brasileiros.
O próprio Banco Central
revisou a posição de investimento internacional líquida de dezembro de 2025
para aproximadamente US$ 1,156 trilhão negativo. Isso significa que,
considerando o conjunto de ativos e passivos internacionais, o Brasil
apresentava uma posição devedora líquida, e não credora.
Assim, a conclusão correta é
mais equilibrada: o Brasil possui reservas internacionais expressivas, mas isso
não elimina seus compromissos externos nem autoriza afirmar que seja credor
líquido perante o restante do mundo.
O QUE
ACONTECEU COM O BRASIL EM 1987 E POR QUE A SITUAÇÃO ATUAL É DIFERENTE?
A história econômica
brasileira oferece um exemplo importante para compreender a diferença entre
possuir dívidas e não conseguir honrar compromissos externos.
Em 20 de fevereiro de 1987,
durante o governo de José Sarney, o Brasil declarou moratória parcial da dívida
externa.
A decisão ocorreu após uma
forte redução das reservas internacionais. Segundo estudo publicado na revista
Pesquisa e Planejamento Econômico, as reservas em caixa do Banco Central haviam
caído de US$ 7,8 bilhões, em maio de 1986, para aproximadamente US$ 3,7 bilhões
em janeiro de 1987.
A moratória suspendeu os
pagamentos de juros de dívidas de médio e longo prazo devidas a bancos
comerciais estrangeiros. Também envolveu medidas relacionadas a depósitos
comerciais e interbancários mantidos no exterior por agências de bancos
brasileiros.
É importante destacar que não
se tratou da suspensão de todos os pagamentos externos do país.
A decisão foi consequência de
uma situação de forte pressão sobre as reservas, dificuldades de financiamento
e desequilíbrios econômicos. A crise da dívida externa brasileira somente foi
solucionada de forma mais ampla em 1994, com a adesão ao Plano Brady. O cenário
de 2026 é diferente.
Atualmente, o Brasil possui
centenas de bilhões de dólares em reservas internacionais, mantém acesso aos
mercados financeiros e apresenta uma estrutura econômica e financeira distinta
daquela existente na década de 1980.
Isso não significa que o país
esteja livre de riscos. Significa que não há fundamento para tratar
automaticamente a situação fiscal atual como se fosse uma repetição da
moratória de 1987.
O QUE É O RISCO-PAÍS?
Outro indicador frequentemente
utilizado nesse debate é o chamado risco-país.
Um dos instrumentos conhecidos
para acompanhar esse risco é o EMBI+, calculado pelo JPMorgan. Ele compara os
juros pagos por títulos de dívida de países emergentes com os juros de títulos
considerados mais seguros, como os do Tesouro dos Estados Unidos.
Em linguagem simples, quanto
maior o diferencial de juros, maior tende a ser o prêmio exigido pelos
investidores para emprestar dinheiro àquele país.
Esse indicador ajuda a avaliar
a percepção de risco dos investidores, mas não determina sozinho se um país
está ou não quebrado.
Também é necessário cuidado ao
comparar Brasil, Argentina, Rússia e Grécia. Cada crise teve características
próprias, com diferentes causas, estruturas de dívida, moedas e condições
políticas.
Em outubro de 2026, por
exemplo, a Argentina voltou a apresentar forte elevação do risco-país, com o
EMBI+ chegando a aproximadamente 710 pontos durante uma sessão de negociação em
20 de outubro. Esse dado não deve ser comparado com números brasileiros de
outros períodos sem especificar as datas e a mesma metodologia.
O
VERDADEIRO DESAFIO INTERNO: A DÍVIDA PÚBLICA BRASILEIRA
Se as reservas internacionais
representam uma proteção importante para o país, a dívida pública interna é um
dos principais pontos de atenção da economia brasileira.
A dívida pública é formada
pelos compromissos financeiros assumidos pelo governo para financiar suas
atividades. Quando a arrecadação de impostos e outras receitas não é suficiente
para cobrir todas as despesas, o governo pode recorrer à emissão de títulos e a
outras formas de financiamento.
O Banco Central acompanha dois
indicadores importantes: a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) e a Dívida
Líquida do Setor Público (DLSP).
A DBGG considera as obrigações
do governo federal, do INSS e dos governos estaduais e municipais. Já a DLSP
desconta determinados ativos financeiros do setor público de suas obrigações.
Segundo os dados divulgados
pelo Banco Central em 29 de outubro de 2026, referentes a setembro:
|
INDICADOR |
RESULTADO |
|
Dívida Bruta do Governo
Geral |
R$ 11,1 trilhões |
|
DBGG em relação ao PIB |
82,9% |
|
Dívida Líquida do Setor
Público |
R$ 9,4 trilhões |
|
DLSP em relação ao PIB |
70,0% |
A dívida bruta permaneceu em
82,9% do PIB em setembro, enquanto a dívida líquida chegou a 70%. No acumulado
de 2026, a DBGG aumentou 4,3 pontos percentuais do PIB. Esses números mostram
que o endividamento público é elevado e exige atenção.
Mas o tamanho da dívida não
deve ser analisado isoladamente. Também é necessário observar o crescimento da
economia, a arrecadação, as taxas de juros, o resultado primário e a capacidade
do governo de administrar seus compromissos ao longo do tempo.
O PESO DOS JUROS NAS CONTAS
PÚBLICAS
Um dos dados mais preocupantes
está no custo dos juros da dívida.
De acordo com o Banco Central,
os juros nominais do setor público consolidado somaram R$ 1,205 trilhão nos
12 meses encerrados em setembro de 2026, o equivalente a 8,99% do PIB. No
mesmo período, o déficit nominal chegou a R$ 1,275 trilhão, ou 9,51% do PIB.
Para compreender esses
números, é preciso diferenciar dois conceitos.
Resultado primário:
diferença entre receitas e despesas do governo antes do pagamento dos juros da
dívida.
Resultado nominal:
inclui o resultado primário e os juros nominais apropriados no período.
Quando o governo gasta mais do
que arrecada, sem considerar os juros, registra déficit primário. Quando os
juros são incorporados à conta, o resultado pode se tornar ainda mais negativo.
Em setembro de 2026, o setor
público consolidado registrou déficit primário de R$ 5,5 bilhões. No acumulado
de 12 meses, o déficit primário foi de R$ 70,1 bilhões, equivalente a 0,52% do
PIB.
O problema é que o pagamento
de juros consome recursos que poderiam ser destinados a outras áreas, como
saúde, educação, infraestrutura, habitação e investimentos públicos.
Isso não significa que todo o
valor dos juros possa ser simplesmente transferido para essas áreas: a dívida
precisa ser administrada e os compromissos financeiros precisam ser cumpridos.
Mas evidencia o custo de manter um endividamento elevado em um ambiente de
juros altos.
Também é importante lembrar
que nem toda a dívida pública varia diretamente com a taxa Selic. A composição
dos títulos, seus prazos e seus indexadores influenciam o custo efetivo do
endividamento.
O desafio fiscal, portanto,
não está apenas em arrecadar mais ou gastar menos. Está em construir uma
trajetória sustentável para a dívida, equilibrando receitas, despesas,
crescimento econômico e custo de financiamento.
O
ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS BRASILEIRAS: POR QUE TANTOS BRASILEIROS ESTÃO
DEVENDO?
Enquanto o governo enfrenta o
desafio de administrar sua dívida, milhões de brasileiros convivem com outro
problema: o endividamento familiar.
A Pesquisa de Endividamento e
Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do
Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), acompanha mensalmente a situação
financeira das famílias.
Em abril de 2026, a pesquisa registrou:
|
INDICADOR |
PERCENTUAL |
|
Famílias endividadas |
80,9% |
|
Famílias com dívidas em
atraso |
29,7% |
|
Famílias sem condições de
pagar as dívidas atrasadas |
12,3% |
Esses dados mostram que o
endividamento alcança uma parcela muito expressiva da população. Mas é
necessário entender a diferença entre os indicadores.
Uma família endividada não é
necessariamente uma família inadimplente. Quem possui financiamento de um
imóvel, prestações de um veículo ou compras parceladas no cartão de crédito
também é considerado endividado.
A inadimplência ocorre quando
o pagamento deixa de ser realizado no prazo. Já a incapacidade de pagamento
representa uma situação mais grave, na qual a família declara não conseguir
quitar as dívidas em atraso.
O levantamento histórico
também revela uma mudança importante. Em 2018, o percentual de famílias
endividadas estava próximo de 60%. Em 2022, chegou a aproximadamente 78%,
segundo a série histórica da Peic. Em março de 2026, alcançou 80,4%, conforme
levantamento compilado pelo Dieese.
O QUE CONTRIBUI PARA O
ENDIVIDAMENTO?
Não existe uma única causa.
Entre os fatores que podem
contribuir para o crescimento das dívidas estão:
Juros elevados em modalidades
de crédito, especialmente no cartão e no cheque especial.
Aumento do custo de vida e
pressão sobre o orçamento doméstico.
Uso frequente do crédito para
despesas essenciais.
Financiamentos e compras
parceladas.
Expansão das modalidades
digitais de crédito.
Perda de renda ou
instabilidade no emprego.
Apostas on-line e outras
formas de comprometimento da renda.
É importante evitar atribuir
todo o crescimento do endividamento a um único governo ou a uma única política
econômica. A situação depende de diversos fatores, entre eles inflação, renda,
emprego, juros, oferta de crédito e comportamento de consumo.
As apostas on-line também
merecem atenção, especialmente quando comprometem recursos destinados a
alimentação, moradia e outras necessidades básicas. Entretanto, para medir sua
participação no endividamento nacional, são necessários estudos específicos, e
não apenas a associação entre os dois fenômenos.
COMO A SITUAÇÃO FISCAL PODE
AFETAR O CIDADÃO?
Existe uma relação entre as
contas públicas e o custo do crédito.
Quando investidores percebem
maior risco fiscal, podem exigir juros mais elevados para financiar o governo.
Dependendo das condições econômicas, isso pode contribuir para elevar os custos
de financiamento na economia.
Entretanto, as taxas de juros
cobradas de consumidores também dependem da política monetária, da inflação, da
inadimplência, das garantias, dos custos bancários e da concorrência entre
instituições financeiras.
Portanto, o endividamento
familiar não é consequência automática da dívida pública, mas os dois assuntos
fazem parte de um mesmo ambiente econômico.
PRIVATIZAÇÕES
E VENDA DE EMPRESAS PÚBLICAS: O QUE ACONTECEU COM O PATRIMÔNIO DO ESTADO?
Outro ponto importante do
debate econômico é a venda de empresas e ativos públicos.
Uma das justificativas
frequentemente utilizadas para defender privatizações é a necessidade de
reduzir despesas, levantar recursos, atrair investimentos e melhorar a
eficiência de determinados serviços.
Por outro lado, críticos
dessas operações questionam o preço de venda, a perda de receitas futuras, a
transferência de ativos estratégicos e a capacidade de fiscalização após a
mudança de controle.
Para analisar essas operações,
é necessário observar o que foi vendido, quanto foi recebido, quais dívidas
foram assumidas, quais investimentos foram prometidos e quais resultados
apareceram depois da negociação.
PETROBRAS: VENDA DE ATIVOS E
MUDANÇA DE ESTRATÉGIA
Nos últimos anos, a Petrobras
realizou diversas operações de desinvestimento, envolvendo empresas, refinarias
e infraestrutura de transporte de gás.
Entre os exemplos estão:
Nova Transportadora do Sudeste
(NTS): em 2016, a Petrobras anunciou a venda de 90% de sua
participação na empresa por US$ 5,194 bilhões. A NTS atua no transporte de gás
natural.
BR Distribuidora: em
julho de 2021, a Petrobras concluiu a venda de sua participação restante na
empresa, recebendo aproximadamente R$ 11,36 bilhões. A companhia deixou de ter
participação acionária na distribuidora, que posteriormente passou a atuar sob
a marca Vibra.
Refinaria Landulpho Alves
(RLAM): a refinaria localizada na Bahia foi vendida ao grupo
Mubadala Capital. O preço de compra anunciado foi de US$ 1,65 bilhão, mas o
pagamento no fechamento da operação chegou a US$ 1,8 bilhão, após ajustes
preliminares. A unidade passou a se chamar Refinaria de Mataripe e sua operação
ficou sob responsabilidade da Acelen. Essas operações fazem parte de uma
estratégia de reorganização do portfólio da Petrobras, que buscou concentrar
investimentos em determinadas áreas de atuação.
Os defensores dos
desinvestimentos argumentam que a venda permite direcionar recursos para
atividades consideradas prioritárias e ampliar a participação de empresas
privadas em setores antes dominados pela estatal.
Os críticos questionam se os
preços foram adequados, se os ativos poderiam gerar receitas maiores no longo
prazo e quais foram os efeitos sobre a concorrência e os consumidores.
Não é possível concluir que
uma operação foi boa ou ruim apenas pelo valor recebido. É preciso comparar o
preço de venda com o valor econômico do ativo, as condições contratuais, as
obrigações transferidas e os resultados posteriores.
SABESP: A PRIVATIZAÇÃO DO
SANEAMENTO PAULISTA
Outro exemplo relevante
ocorreu em 2024, quando o Estado de São Paulo concluiu a privatização da
Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp).
Na operação, o Estado levantou
aproximadamente R$ 14,77 bilhões com a venda de ações, ao preço de R$ 67 por
papel. A Equatorial Energia assumiu uma participação estratégica de 15% na
companhia, em uma operação de aproximadamente R$ 7 bilhões.
O processo reduziu a
participação acionária do Estado e alterou a estrutura de controle da empresa. Os
defensores da privatização argumentaram que a mudança poderia acelerar
investimentos, antecipar metas de universalização do saneamento e melhorar a
eficiência operacional.
Os críticos levantaram
preocupações sobre tarifas, fiscalização, qualidade do serviço, universalização
do atendimento e controle público de um serviço essencial.
OS RESULTADOS FINANCEIROS DA
SABESP
Os resultados financeiros da
companhia também precisam ser analisados com atenção.
No segundo trimestre de 2024,
a Sabesp registrou lucro líquido de aproximadamente R$ 1,209 bilhão e EBITDA
ajustado de R$ 2,970 bilhões.
O EBITDA é um indicador
utilizado para avaliar o desempenho operacional de uma empresa antes de juros,
impostos, depreciação e amortização. Não equivale ao lucro líquido nem
representa, por si só, o dinheiro disponível em caixa. Esses resultados são
anteriores à conclusão da privatização, ocorrida em julho de 2024, por isso,
não podem ser apresentados como prova de que a privatização melhorou ou piorou
o desempenho da companhia.
O relatório anual de 2024, por
sua vez, registrou EBITDA ajustado de R$ 11,339 bilhões e lucro líquido
contábil de R$ 9,580 bilhões. A própria companhia explicou que o resultado
contábil foi influenciado por efeitos extraordinários, incluindo o reconhecimento
de ativos financeiros. O lucro líquido ajustado, desconsiderados determinados
efeitos não recorrentes, foi de R$ 5,174 bilhões.
A comparação entre períodos
exige cuidado: mudanças contábeis, reajustes tarifários, investimentos,
despesas extraordinárias e a própria reorganização societária podem alterar os
indicadores.
O ponto central é que a
privatização não deve ser avaliada apenas pelo dinheiro arrecadado pelo Estado.
Também é necessário acompanhar a qualidade dos serviços, os investimentos
efetivamente realizados, as tarifas cobradas e o cumprimento das metas de atendimento.
VENDER PATRIMÔNIO RESOLVE O
PROBLEMA FISCAL?
A venda de ativos públicos
pode gerar receitas extraordinárias e reduzir determinadas obrigações
financeiras. Mas não substitui uma política fiscal sustentável.
Existe uma diferença entre
receber dinheiro pela venda de um patrimônio e resolver o desequilíbrio
permanente entre receitas e despesas.
Uma venda pode melhorar o
caixa em determinado momento. Entretanto, se o governo continuar apresentando
despesas superiores às receitas, o problema fiscal poderá reaparecer.
Além disso, a venda de um
ativo pode significar a perda de receitas futuras, como dividendos,
participações nos lucros e outros retornos econômicos.
Por isso, cada operação
precisa ser examinada individualmente, considerando o valor recebido, os
compromissos assumidos, o impacto sobre as contas públicas e os efeitos para a
população.
O QUE OS INDICADORES MOSTRAM
SOBRE O BRASIL EM 2026?
Ao reunir os dados, é possível
identificar duas realidades que coexistem.
De um lado, o Brasil possui
reservas internacionais expressivas, uma economia com capacidade de exportação
e acesso aos mercados financeiros internacionais. Esses fatores ajudam a
reduzir o risco de uma crise imediata de pagamentos externos.
De outro, o país enfrenta uma dívida pública elevada, um custo expressivo de juros e dificuldades para equilibrar suas contas. O endividamento das famílias também revela uma situação preocupante para milhões de brasileiros.
Os principais indicadores examinados mostram:
|
ÁREA
ANALISADA |
INFORMAÇÃO
VERIFICADA |
|
Reservas internacionais |
US$ 362,8 bilhões em
setembro de 2026 |
|
Balança comercial |
Superávit de US$ 74,6
bilhões em 2024 |
|
Transações correntes |
Déficit de US$ 60 bilhões em
12 meses até setembro de 2026 |
|
Dívida bruta |
R$ 11,1 trilhões, ou 82,9%
do PIB, em setembro de 2026 |
|
Dívida líquida |
R$ 9,4 trilhões, ou 70% do
PIB, em setembro de 2026 |
|
Juros nominais |
R$ 1,205 trilhão em 12 meses
até setembro de 2026 |
|
Déficit nominal |
R$ 1,275 trilhão em 12 meses
até setembro de 2026 |
|
Famílias endividadas |
80,9% em abril de 2026 |
Os números deixam claro que
não existe uma única resposta para a pergunta sobre a situação financeira do
país.
O Brasil possui instrumentos
importantes para enfrentar choques externos, mas precisa administrar melhor o
custo de sua dívida e construir condições para estabilizar o endividamento
público.
Ao mesmo tempo, a situação das
famílias mostra que a estabilidade macroeconômica não significa,
necessariamente, tranquilidade financeira para a população.
CONCLUSÃO
— O BRASIL ESTÁ QUEBRADO OU ENFRENTA PROBLEMAS QUE PRECISAM SER RESOLVIDOS?
A análise dos indicadores
econômicos permite chegar a uma conclusão: dizer simplesmente que o Brasil está
quebrado é uma afirmação imprecisa e não representa adequadamente a situação
financeira do país.
As reservas internacionais, o
histórico de exportações e a estrutura econômica brasileira demonstram que o
país possui condições de proteção externa muito diferentes daquelas observadas
durante a crise da dívida da década de 1980.
Entretanto, isso não significa
que as contas públicas estejam em situação confortável.
A dívida bruta de R$ 11,1
trilhões, os juros nominais de R$ 1,205 trilhão em 12 meses e o déficit nominal
de R$ 1,275 trilhão são indicadores que merecem atenção. O crescimento do
endividamento público pode comprometer a capacidade de investimento do Estado e
aumentar a pressão sobre o orçamento.
Também não se pode ignorar a
situação das famílias brasileiras. Quando oito em cada dez famílias declaram
possuir algum tipo de dívida, o debate econômico precisa ir além dos
indicadores financeiros do governo e considerar a realidade de quem trabalha, paga
impostos, compra alimentos, financia a casa e tenta fechar as contas no fim do
mês.
As privatizações, por sua vez,
devem ser avaliadas com transparência, considerando não apenas o dinheiro
recebido pelo Estado, mas também o valor dos ativos, os compromissos assumidos
e os efeitos sobre a sociedade.
O debate econômico precisa
abandonar os slogans e se apoiar em dados verificáveis.
Não é correto afirmar que o
país está financeiramente saudável apenas porque possui reservas
internacionais. Da mesma forma, não é correto afirmar que está falido apenas
porque apresenta dívida pública elevada.
A realidade é mais complexa.
O Brasil não enfrenta, pelos
dados examinados, uma repetição da moratória externa de 1987. Mas enfrenta
desafios fiscais concretos, que exigem planejamento, responsabilidade na gestão
dos recursos públicos, crescimento econômico e políticas capazes de melhorar a
renda e a qualidade de vida da população.
No fim das contas, a pergunta
mais importante não é apenas se o Brasil tem dinheiro para pagar suas dívidas.
É também saber como o país administra seus recursos, quanto custa manter suas
obrigações e o que sobra para melhorar a vida dos brasileiros.

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