“Nenhuma cidade entra em crise da noite para o dia. A decadência costuma ser lenta, silenciosa e construída por uma sucessão de erros.”
Opinião - Por Abner SantosHá uma narrativa conveniente que se repete em praticamente todos os municípios brasileiros: a de que o desenvolvimento não acontece porque falta dinheiro. Mas essa explicação, embora confortável, raramente conta toda a história. Na maioria das vezes, o maior obstáculo ao progresso não é a escassez de recursos, mas a escassez de gestão qualificada.
Uma prefeitura pode arrecadar milhões em tributos, receber repasses estaduais, verbas federais e convênios e, ainda assim, permanecer estagnada por anos. Afinal, recursos financeiros, por si só, não produzem desenvolvimento. Sem planejamento, controle e capacidade administrativa, o dinheiro perde sua função; é como abastecer um veículo cujo motorista não sabe para onde dirigir.
A própria História demonstra isso. Aristóteles ensinava que governar exige phronesis (ou frônese), termo grego antigo traduzido como sabedoria prática ou prudência — a sabedoria para decidir em favor do interesse coletivo. O poder, por si só, não transforma ninguém em um bom governante; o cargo não substitui a competência e, infelizmente, é comum confundir autoridade com capacidade. São conceitos completamente diferentes.
Pode-se construir um grande navio, equipado com toda a tecnologia disponível e, ainda assim, se quem estiver no comando desconhecer o caminho, bastará uma sequência de decisões equivocadas para levá-lo ao naufrágio.
Imagine uma canoa atravessando um rio. Dentro dela estão todos os moradores. Alguns remam, outros apenas acompanham o percurso, há quem acredite que tudo está sob controle porque, até aquele momento, a água ainda não começou a entrar. O problema é que quem segura o remo talvez nunca tenha aprendido a navegar; não conhece a correnteza, não sabe identificar os pontos mais profundos, ignora as pedras escondidas sob a superfície e, mesmo assim, insiste em conduzir a embarcação. E quando ela começa a fazer água, não existe passageiro privilegiado: todos afundam juntos. A água não pergunta em quem cada um votou antes de invadir a canoa.
Assim também acontece com uma cidade. Quando a administração pública perde eficiência, seus efeitos alcançam toda a sociedade. O comerciante vê suas vendas diminuírem, o empresário adia investimentos, o empreendedor enfrenta burocracias cada vez maiores, o agricultor convive com estradas deterioradas, o servidor trabalha sem estrutura adequada, a saúde demora mais para atender, a educação perde qualidade, a infraestrutura envelhece, a economia desacelera. No fim, todos trabalham mais para produzir menos.
A incompetência administrativa dificilmente se apresenta de maneira explícita. Ela costuma usar gravata, discursa com eloquência, inaugura placas, produz vídeos institucionais, publica fotografias, multiplica promessas, mas entrega resultados muito inferiores às expectativas criadas.
Max Weber, um dos maiores estudiosos da administração pública moderna, advertia que um Estado eficiente depende de instituições técnicas, profissionais e organizadas. Quando cargos estratégicos deixam de ser ocupados pelos mais preparados e passam a obedecer critérios de amizade, interesses eleitorais ou favores políticos, a competência cede espaço ao improviso. E improvisar, na gestão pública, quase sempre custa caro. Muito caro.
Porque os erros administrativos dificilmente produzem consequências imediatas. Eles se acumulam. Começam com pequenas falhas: uma licitação mal elaborada, um contrato fiscalizado de forma inadequada, uma obra iniciada sem planejamento suficiente, uma secretaria sem metas definidas, uma decisão tomada para atender conveniências políticas e não necessidades técnicas. Cada problema parece pequeno quando analisado isoladamente, mas, somados ao longo do tempo, tornam-se um enorme passivo para toda a população.
A ferrugem não derruba uma ponte em um único dia. Ela corrói lentamente sua estrutura, até que a resistência desapareça. Com as cidades acontece exatamente o mesmo. A decadência normalmente não nasce de uma única grande crise; resulta da repetição cotidiana de pequenas incompetências: um documento entregue fora do prazo, um projeto abandonado, recursos públicos devolvidos por incapacidade de execução, investimentos que migram para municípios vizinhos, empresas que desistem de se instalar, profissionais qualificados que buscam oportunidades em outras cidades. Depois de uma década, poucos conseguem apontar o momento exato em que tudo começou, mas quase todos percebem que o município deixou de avançar.
Mais de dois mil anos atrás, Platão já refletia sobre esse problema em A República. Ao comparar o Estado a um navio, descreveu passageiros disputando o comando da embarcação, enquanto aquele que realmente conhecia os ventos, as estrelas e o mar era ignorado. A metáfora continua surpreendentemente atual.
Vivemos um período em que, muitas vezes, conhecimento é confundido com arrogância, planejamento recebe o rótulo de burocracia, estudo passa a ser tratado como excesso de formalidade, experiência perde importância e improvisar acaba sendo visto como sinal de dinamismo. Entretanto, a realidade impõe limites. Pontes não são erguidas no improviso, hospitais não funcionam no improviso, escolas não melhoram no improviso, as finanças públicas não sobrevivem ao improviso.
A administração pública não pode ser um campo de testes para amadores. Quando um piloto falha, um avião pode cair; quando um médico erra, vidas ficam em risco; quando um engenheiro calcula mal uma estrutura, um edifício pode desabar. Mas, quando um gestor público administra de forma incompetente, as consequências costumam ser menos visíveis e muito mais duradouras: são escolas que deixam de ser construídas, empregos que nunca aparecem, indústrias que escolhem outras cidades, investimentos perdidos. O maior prejuízo nem sempre aparece nas estatísticas; revela-se nas oportunidades que jamais existiram.
A política deveria servir como instrumento para construir soluções. Mas, frequentemente, transforma-se em disputa permanente por protagonismo. O debate deixa de girar em torno das necessidades da população e passa a concentrar-se em vaidades pessoais, disputas eleitorais e busca por visibilidade. Enquanto isso, os problemas permanecem: as ruas continuam esburacadas, as filas na saúde permanecem extensas, o empreendedor continua enfrentando obstáculos, os jovens seguem deixando a cidade em busca de oportunidades.
E existe uma forma de incompetência ainda mais nociva: a omissão. Edmund Burke tornou célebre a ideia de que o mal prospera quando aqueles que poderiam agir permanecem inertes. Uma cidade não se deteriora apenas por causa de maus administradores; ela também enfraquece quando os cidadãos deixam de fiscalizar, quando vereadores deixam de exercer seu papel de controle, quando servidores silenciam diante dos problemas, quando a imprensa abandona sua função investigativa, quando a sociedade substitui a fiscalização pela torcida. Democracia não é espetáculo. É participação permanente.
O custo da incompetência dificilmente aparece apenas nos números do orçamento. Ele aparece na vida cotidiana: no jovem que precisa deixar sua cidade para encontrar trabalho, na empresa que encerra suas atividades, na família que espera meses por um atendimento, na obra pública que nunca termina, na praça abandonada, na oportunidade desperdiçada, no talento que vai embora, na esperança que diminui. São perdas impossíveis de medir integralmente em uma planilha, mas suficientes para comprometer o futuro de toda uma geração.
É importante distinguir erro de incompetência. Errar faz parte de qualquer processo de gestão. Nenhum administrador é infalível. O verdadeiro problema surge quando os mesmos equívocos se repetem indefinidamente, quando não existe aprendizado, quando as justificativas permanecem sempre as mesmas, quando a responsabilidade é constantemente transferida para terceiros: o governo anterior, a crise econômica, a oposição, o clima, Brasília, o Estado. Qualquer explicação parece servir, menos reconhecer as próprias falhas.
A canoa não afunda de uma só vez. Primeiro surge um pequeno vazamento. Ninguém se preocupa. Depois entra um pouco mais de água. Alguém diz que é normal. Mais tarde, começam a retirar baldes de água da embarcação. Em seguida, culpam o rio. E somente quando a canoa desaparece sob a água percebem que o verdadeiro problema jamais foi a correnteza. Era quem conduzia o remo.
CONCLUSÃO
Nenhum município prospera apenas porque arrecada mais recursos. O desenvolvimento nasce da capacidade de administrar melhor aquilo que já existe. Planejamento, competência técnica, transparência, responsabilidade fiscal, continuidade administrativa e decisões fundamentadas são os pilares sobre os quais cidades sólidas são construídas.
A política é uma das ferramentas mais poderosas para transformar uma sociedade. Nas mãos de gestores preparados, promove crescimento, oportunidades e qualidade de vida. Nas mãos da incompetência, transforma-se em um freio permanente ao desenvolvimento.
Cidades não precisam de salvadores da pátria. Precisam de instituições fortes, gestores competentes e cidadãos atentos, porque o futuro coletivo depende menos de discursos grandiosos e muito mais da qualidade das decisões tomadas diariamente.
Uma embarcação consegue enfrentar tempestades, ventos contrários e correntezas violentas quando possui um comandante capaz de interpretar os mapas, ouvir a experiência e corrigir a rota sempre que necessário. O que dificilmente consegue superar é alguém que despreza o conhecimento, ignora os sinais e transforma imprudência em método de governo.
A História ensina essa lição repetidas vezes: quando a incompetência permanece tempo demais no comando, o fracasso deixa de ser apenas do governante. Passa a ser de toda a comunidade. E, se ninguém corrigir o rumo enquanto ainda há tempo, a água continuará entrando — lentamente, silenciosamente — até que, inevitavelmente, a canoa vire.


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